Mas esse não é também um problema com relação à fiscalização? O que fazer minimamente para garantir a segurança nas construções?
Já faz parte da cultura internacional que o escritório que projeta passe seu trabalho para que outro escritório independente faça a verificação. No Brasil, esse procedimento está um pouco mais comum, mas ainda há profissionais de projeto que desconfiam quando outro faz essa verificação, como se quisesse denegrir seu trabalho. Não é nada disso. Essa argumentação é pouco resistente. Também é preciso tomar os devidos cuidados com programas computacionais. Computador é imprescindível, ninguém mais trabalha sem usar programas de calculo, execução, controle e gerenciamento, mas esses sistemas devem ser trabalhados com inteligência humana. Se o profissional não fizer uso dessas ferramentas de acordo com os critérios do programa, o resultado pode ser uma bobagem. E por falta de experiência, o engenheiro joga a informação no computador e ele acredita que o resultado está perfeito. É preciso fazer análise critica do resultado e só quem tem experiência pode fazer essa análise crítica. E isso não está sendo feito. Falta tempo, prazo, às vezes sai algo sem a devida verificação.
E quanto à fiscalização de obras?
Na obra é a mesma coisa. Executando, tem que ter uma fiscalização, mas não como a de hoje, só para fazer medição. Ninguém se preocupa em saber se o concreto é adequado, se a armação está na posição correta, essas questões...
De que forma essa fiscalização deveria estar estruturada?
Devia existir algum mecanismo para exigência de fiscalização. Assim como a prefeitura exige, por exemplo, um alvará para construção, deveria exigir a responsabilidade de alguém que vai verificar a obra. Pode ser que não funcione, porque tem o engenheiro "canetinha", que assina e nem vai ver a obra - esses profissionais são um câncer para a engenharia - mas poderia ser feita uma verificação. Deveria ser feita uma concorrência para projeto e uma concorrência para verificação do projeto. É uma segurança a mais. Algumas autarquias do governo fazem esse tipo de verificação, como o metrô, que tem uma equipe técnica, embora sejam sobrecarregados, assim como Infraero, DER, pessoal de controle de barragens, mas a gente sempre nota que são profissionais com muito trabalho para fazer e com prazos apertados. É aquela pressão ruim.
De quem deveria ser, afinal, esse papel fiscalizador?
O poder público tem que organizar esse mundo todo. A fiscalização deveria ficar dentro de sua competência. Hoje o poder público recebe anteprojetos de arquitetura e aprova a execução da obra. A prefeitura não exige projetos executivos. Essa é uma luta de anos das entidades, para que as obras sejam contratadas por projeto executivo, porque haverá muito mais segurança. Em casos de prédios mais novos, como o de Belém do Pará que caiu durante a construção, há um projeto executivo, pode-se buscar informações com o projetista ou a construtora para descobrir as razões da queda e evitar essas causas. Mas a prefeitura deveria ter esses projetos. Se daqui a 30 anos cair um prédio, a prefeitura não terá um projeto executivo. Veja o caso do desabamento no Rio de Janeiro. Então, a exigência desses projetos é uma necessidade.
No caso específico do desabamento de três edifícios no Rio de Janeiro, o primeiro que caiu teria sofrido uma série de intervenções ao longo dos anos, como acréscimo de pavimentos, aberturas de vãos em empenas cegas, entre outros. Essas reformas poderiam ter sido feitas, antes mesmo da última intervenção que teria causado o colapso?
A reforma que estava em andamento é considerada a causa mais provável, não importa se o prédio tinha mais ou menos pilares. Seguramente algum fato que ocorreu causou o colapso. Se o prédio estava lá ate hoje, alguma resistência tinha. Estava com a estrutura adequada e estável, porque ficou anos lá. Mas foi feita alguma modificação, na minha interpretação, alguma coluna foi afetada.
A prefeitura poderia ter evitado esse colapso se soubesse da reforma?
Para qualquer reforma, é obrigatória a obtenção de autorização da prefeitura. Mas a prefeitura vai observar a área em que será realizada a reforma, se não haverá uma invasão de calçada, por exemplo, mas não vai verificar a parte estrutural. Então, não ia adiantar nada se a prefeitura tivesse recebido essa solicitação.
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Relembre alguns acidentes:
Edifícios no Rio de Janeiro
Na última quarta-feira (25), três edifícios desabaram na cidade do Rio de Janeiro, causando a morte de pelo menos 17 pessoas. As causas do acidente ainda não foram descobertas, mas a principal hipótese é que obras irregulares no edifício tenham causado o rompimento da estrutura.
Edifício Real Class
O edifício de 34 andares na cidade de Belém desabou, ainda em obras, em janeiro de 2011, soterrando uma mulher e dois operários. Segundo o laudo do Centro de Perícias Renato Chaves (CPC), havia falhas no projeto estrutural, erro de concepção no modelo matemático e não cumprimento de normas administrativas.
Rodoanel
Em novembro de 2009, três vigas de 85 t e cerca de 40 m de comprimento caíram do viaduto em obras no trecho sul do Rodoanel Mario Covas, sobre a rodovia Regis Bittencourt, atingindo dois carros e um caminhão.
Barragem de Algodões
A barragem de Algodões, no Piauí, se rompeu em maio de 2009, alagando a cidade de Cocal da Estação. A ocorrência foi causada pelo excessivo volume de água, que ultrapassou os 52 bilhões de litros. A força da água cortou a estrada e abriu uma cratera de mais de um quilômetro.
Estação Pinheiros do Metrô
Em janeiro de 2007, o desabamento nas obras da Estação Pinheiros do Metrô, em São Paulo, resultou na abertura de uma cratera de 80 m de diâmetro por 30 m de profundidade, que "engoliu" quatro caminhões, dois carros, uma van e abalou estruturas de edificações vizinhas. Sete pessoas morreram no acidente.
Represa do Capivari
Queda de parte da ponte sobre a represa do Capivari, na BR-116, no Paraná, em janeiro de 2005. Segundo relatório feito pela perícia na época, a ocorrência foi motivada pelo excesso de chuvas, deficiência do sistema de drenagem na cabeceira e deslocamentos de grandes volumes de terra.
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