"Arquitetura é arte pública. É linguagem, é comunicação". As afirmações foram feitas pelo arquiteto polonês naturalizado norte-americano Daniel Libeskind, criador, entre outros, do Museu Judaico em Berlim e da Freedom Tower, em construção no Ground Zero, em Nova York (EUA).
A entrevista foi feita por telefone na sexta-feira, dia 20 de março, às vésperas da viagem do arquiteto a São Paulo, onde Libeskind irá proferir uma palestra no Fórum Internacional de Arquitetura e Construção, evento paralelo à mostra Exporevestir (de terça a sexta desta semana no Transamérica Expo Center, na Zona Sul da São Paulo). A seguir, leia um trecho da entrevista.
Seu escritório, Studio Daniel Libeskind, tem sede em Nova York, o olho do furacão da crise financeira mundial. Diria que a crise vai pôr um fim à arquitetura do espetáculo e ao starsystem?
Não sei quanto à arquitetura do espetáculo e não concordo que pertença ao que chamam de starsystem. Só posso falar por mim e continuo tendo trabalho no meu escritório, as pessoas continuam me procurando. Os projetos de fato importantes, que têm significado social, político e que, portanto, precisam ser construídos, serão construídos.
Você sempre defende que a arquitetura que arquitetura é arte e, como tal, deve guardar uma dimensão simbólica. De certa maneira, essa atitude não é a que produz a arquitetura espetacular? Ou pelo menos uma arquitetura imagética?
Tudo depende do significado. A arquitetura não pode ser vazia. Se ela tiver o que dizer, então ela não é só imagem, não tem nada a ver com marketing. Nenhum dos meus museus têm a ver com marketing. O museu em Denver (extensão do Museu de Arte de Denver, em Denver, Colorado, EUA,2006) e o em Manchester (Imperial War Museum, em Manchester, Inglaterra, 2001) são inimitáveis. A arquitetura é uma arte. Uma arte pública, não privada, e não se resume a soluções, tem de trazer um posicionamento político, social. Trabalha com ideias, com criatividade, com a memória.
Um dos seus trabalhos mais conhecidos é o Museu Judaico em Berlim (AU 96, jun.2001), inaugurado em 2001, um edifício de forte carga emocional, perturbador até. Há outros vários museus sobre os horrores do holocausto. Agora você está trabalhando no Museu da História Militar em Dresden, na Alemanha, cidade que foi devastada por bombardeios incendiários na Segunda Guerra. Como é essa experiência?
Muito importante. Especialmente na Alemanha, onde as forças armadas simbolizam um novo país. A Alemanha é um país moderno e democrático. Precisa aceitar seu passado e entender o museu como algo positivo. As forças armadas são uma importante instituição dentro de uma democracia e não devem ser escondidas. Além disso o museu não é sobre a guerra, mas sobre as pessoas.
Quanto ao uso da tecnologia, também relacionado à arquitetura imagética, o arquiteto Patrik Schumacher, sócio de Zaha Hadid, esteve no Brasil e afirmou que, caso nossos arquitetos não se atualizem no uso dessas ferramentas, serão incapazes, por exemplo, de participar de concursos internacionais. Você concorda com essa afirmação?
De forma nenhuma! O arquiteto requer mais do que tecnologia, precisa de seres humanos! De criatividade, de conhecimento, de arte. Tudo isso está disponível no Brasil em abundância. A sociedade gosta da liberdade e é isso o que dá suporte à democracia.
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| À esquerda, o projeto original de Daniel Libeskind e, à direita, o reformulado por David Childs |
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| Museu Judaico em Berlim (Alemanha) |