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28/Março/2011

Português Eduardo Souto de Moura vence Pritzker 2011


Para júri do prêmio de arquitetura, edifícios do arquiteto apresentam capacidade de conciliar características opostas


Mauricio Lima

Eduardo Souto de Moura
O arquiteto português Eduardo Souto de Moura foi anunciado hoje vencedor do Pritzker 2011. É a segunda vez que um arquiteto português recebe a premiação, concedida a Álvaro Siza em 1992. Souto de Moura trabalhou com Siza no início de sua carreira, mas apresenta grandes diferenças com relação ao trabalho deste.

Considerado o Nobel da arquitetura, o Pritzker foi criado em 1979 pela Fundação Hyatt para homenagear, em vida, um arquiteto cuja obra demonstre qualidades como talento, visão e compromisso, e traga uma contribuição significativa para a humanidade e para o ambiente construído.

"A arquitetura de Eduardo Souto de Moura não é óbvia, frívola ou pitoresca. Ela tem inteligência e seriedade", diz o júri em comunicado. "Durante as últimas três décadas, Eduardo Souto Moura produziu um corpo de trabalho que é do nosso tempo, mas que também tem ecos da arquitetura tradicional. Os seus edifícios apresentam uma capacidade única de conciliar características opostas, como o poder e a modéstia, a coragem e a sutileza, a ousadia e simplicidade - ao mesmo tempo", diz o comunicado.

Bianca Antunes
Casa das Histórias Paula Rego

Entre os projetos citados pelo júri da premiação, estão o Estádio de Braga, a conversão do Convento Santa Maria do Bouro, em Amares, para um hotel e a Casa das Histórias Paula Rego. O arquiteto é reconhecido pelo rigoroso manejo dos materiais, em especial de concreto, madeira, aço e, com destaque, da pedra, abundante na região, assim como pela quantidade de projetos de residências, seja no norte ou no sul de Portugal.

Ao longo da sua carreira, Souto Moura foi reconhecido diversas vezes, tendo recebido o Prêmio Pessoa (1998), o Prêmio Secil de Arquitetura (1992 e 2004), o 1º Prêmio da Bienal Ibero-Americana (1998), o Prêmio Internacional da Pedra na Arquitetura (1995), a Medalha de Ouro Heinrich Tessenow (2001) e o Prêmio Internacional de Arquitetura de Chicago (2006).

A cerimônia de premiação do Pritzker ocorrerá em 2 de junho, em Washington. Souto de Moura vai receber 100 mil dólares em prêmio e uma medalha de bronze.

Leia abaixo entrevista do arquiteto concedida à Revista AU em dezembro de 2005:

Como pudemos observar em sua apresentação, o senhor trabalha uma construção lógica da forma, com muito rigor e precisão, o que não o impede de realizar uma obra poética. Como consegue conciliar razão e emoção?
A forma não tem que ter lógica. A lógica é o ponto de partida, o suporte. Depois se trabalha o tema, o conceito, o problema e a lógica construtiva. É uma coisa natural. A lógica só me interessa como suporte, como instrumento, não como fim. Porque a função da arquitetura é fazer as pessoas mais felizes, como dizia o professor Fernando Távora (seu mestre e fundador da escola do Porto). Não é preciso divagar.

A intervenção no Mercado de Braga provocou muita discussão pelas soluções modernas empregadas. Na monografia a seu respeito (editada pela Gustavo Gili), o crítico espanhol Xavier Güell comentou que o senhor fazia paredes de pedra por romantismo. Em seus projetos posteriores, a pedra foi incorporada também "por romantismo"?
Não é bem assim. Quando comecei a trabalhar depois da revolução (Revolução dos Cravos, em 1974) era mais econômico fazer um muro de pedra do que de concreto. Trabalhar com a pedra foi uma decisão pragmática. Hoje o muro de pedra é mais caro. Nesse caso é que seria uma opção romântica, pictórica, estética, do arquiteto.

Como é seu processo de projetar?
Varia conforme o programa. Geralmente são programas que conheço bem. Fiz muitas casas. Falo com o cliente para explicar bem, vou várias vezes ao sítio, mas não pretendo que o sítio me diga algo. Posso ter uma idéia desajustada, mas depois consigo ajustá-la. A solução nunca está no sítio, está em mim. Faço os primeiros desenhos e sempre faço maquete. Hoje é mais fácil, as fotos são feitas em digital e eu desenho por cima e testo nas maquetes as proporções. Depois faço um sistema de cruzamento de informações das primeiras idéias com as formas das maquetes. Muito cedo começo a trabalhar com os engenheiros para saber a viabilidade física e se a solução não é contra natura. Muitas vezes altero o projeto na própria obra. Por mais que os arquitetos tentem resolver os problemas há um que não conseguem: a escala, porque é de ordem subjetiva. Há um conjunto de fatores a serem analisados, o que a pessoa precisa e qual o seu território. Tem que se alternar a subjetividade com a objetividade até dizer: está lá. É um processo sinuoso. As primeiras idéias são rápidas, levo um fim de semana para projetar uma casa. Depois demora quatro, cinco anos para ela aparecer. Não penso em estética. Quem pensa em estética não chega lá. Estética é uma predisposição, um conjunto de problemas que não foram resolvidos. Se o poeta tem necessidade de escrever um poema, ele escreve. O arquiteto não pode dizer "vou fazer uma casa integrada na paisagem". Ele tem que fazer uma construção muito friamente para resolver um problema. Se a disposição que ele usou ultrapassa o fenômeno do programa e da função, então surge a estética. A estética nunca é um ato voluntário.

Muitos arquitetos privilegiam a estética em detrimento da função...
Um professor meu que trabalhou com Niemeyer gostava de repetir uma frase dele: "a arquitetura tem que ser bela ¿ se funcionar, melhor". O fato é que isso não é verdade. Em qualquer croqui de Niemeyer a estrutura já está pronta. Cabe ao engenheiro direcioná-la. Portanto, a preocupação maior de Niemeyer não é a estética, ela é o suporte para que sua idéia exista. Quando ele desenha uma pessoa ao lado, já tem a escala.

O senhor tem uma relação de liberdade com a natureza. Costuma dizer que o "local é aquilo que você quer que ele seja". Como se dá essa tensão entre a arquitetura e a natureza?
O lugar é uma construção mental. Fisicamente ele não interessa. É como uma pintura, uma natureza morta. Na medida em que eu giro a casa porque acho a vista para a montanha mais bonita, estou a construir o sítio. A montanha está entrando na construção da casa. Tenho que entender as ausências de energia no local. A construção do projeto é a construção de algo positivo. O objetivo é parecer que, no fim, o objeto está ali e não poderia deixar de estar ali. Se tirar, o sítio poderia ficar pior. O local para o arquiteto é um instrumento, uma ferramenta.

A esse respeito, Eduardo Bru, na mesma monografia da GG, faz uma comparação entre o seu modo de projetar e o de Siza, em que define como conflitiva a paixão de Siza pelo lugar, enquanto em Souto de Moura vê um civilizado romance. Está correta essa avaliação?
Minha arquitetura não tem um conceito, um objetivo. Acho que a arquitetura não tem que ter emoção. Deve ser um objeto frio, estéril. Um objeto a ser construído sem emoção. Se encontramos erros na natureza, devemos construir em outro lugar. O modernismo fez a ruptura com o classicismo. Creio que foi Delacroix quem afirmou que é a natureza que imita a arte... Dizem que Deus fez a água e, o homem, o vinho...


No caso do Estádio de Braga, o senhor mudou a implantação sugerida.
Entendi que ficava bem naquele morro. O monte precisava ser preenchido. Construí o monte de uma maneira diferente, cortei-o na forma de um estádio. Foi muito caro tirar a pedra. Fui criticado politicamente, economicamente e ecologicamente: "na natureza não se toca". A natureza só me interessa quando é operada pelo homem. Uma paisagem virgem não me comove. Posso até achá-la bonita. Há um poema de Herberto Helder, que nunca deve ter ouvido falar em Mies (van der Rohe), que diz "trabalhar na transformação, na transmutação, é obra nossa".

Como se sentiu ao ser convidado para realizar um projeto de tal complexidade?
Muito preocupado. Fiquei sem dormir. Mas resultou que ficou bom. Quando as situações são favoráveis, o cliente é bom, há muito dinheiro, não há crítica, o arquiteto não sente as contradições, o projeto não tem consistência. Só os problemas é que obrigam a procurar soluções. Esse projeto custou anos de minha vida, mas convenceu. Não sabia nada de futebol, aprendi e gostei, é diferente. Visitei muitos estádios na Europa e o que mais gostei foi o do Renzo Piano em Bari (Itália). Visitei várias vezes o de Paris, mais complexo, tem mais tecnologia. O futebol é um espetáculo para a televisão e não para os 30, 40 mil espectadores que estão lá. Os campeonatos mundiais são transmitidos para milhões de pessoas. É preciso criar no estádio as melhores condições para filmar essa "peça de teatro". Portanto, o mais importante no projeto é a iluminação, produzida para que o campo receba a melhor possível, não importa se vai ferir o público. Os holofotes estão dependurados em trilhos, estudou-se muito para evitar sombras. Perguntam-me porque fiz duas arquibancadas apenas. Quem vai assistir ao jogo olha da direita para a esquerda e vice-versa, não se vê o jogo das laterais.

Quais foram suas maiores influências?
Não tenho um ídolo. No primeiro ano fui influenciado por Fernando Távora, meu professor, quem realmente me explicou o que é arquitetura. Depois trabalhei com Siza Vieira no escritório dele. Ele me marcou muito do ponto de vista formal, do conceito de arquitetura. Gosto muito de Mies van der Rohe. As grandes obras são sempre imitadas, me senti mais próximo das obras dele. No Brasil, encontrei um conjunto de obras que me influenciaram. O hotel de Niemeyer em Brasília, já demolido, é uma das melhores obras do século 20 que eu conheço. Uma casa que projetei recentemente foi bastante marcada por Oswaldo Bratke. Visitei a casa de Oscar Americano, no Morumbi, projetada por ele. As obras são melhores quando observadas ao vivo. Depois foi Artigas, uma arquitetura máscula, enquanto a do Niemeyer é mais feminina. E Paulo Mendes da Rocha. Hoje, admiro o arquiteto suíço Herzog, meu amigo.

Há críticos que vêem semelhança entre seu trabalho e o de Paulo Mendes, que classificam como minimalista.
Minimalismo é uma palavra banal, parece oportunismo, veio em seguida ao pós-modernismo que é uma arquitetura narrativa, de excessos, de citações. Quem faz arquitetura é o arquiteto, não o escritor. A mim não diz nada. O minimalismo foi importante, foi uma terapia voltar à tabula rasa. Hoje o minimalismo deixou de ser arquitetura para se tornar um fetiche. O Paulo é essencialista, trabalha com um único material, trabalha com a luz, vai à essência da arquitetura, não faz a cosmética da obra. Paulo é isso.


E Souto de Moura, o que é?
Não sei. Quem sabe são os críticos.

Como chegou a uma linguagem pessoal, diferenciada de seus mestres? Citam influências de artistas como o minimalista norte-americano Donald Judd e mesmo do cineasta Wim Wenders.
Gosto de alguns filmes de Wenders, mas é perigoso fazer essas transferências. Posso dizer que admiro Donald Judd, não só pelos objetos que ele faz, mas por sua postura ética sobre a arte. Os objetos que ele fez têm alguma analogia com as formas arquitetônicas. A arte tem uma função social e ele instituiu uma comunidade artística de proteção (Chinati Foundation), escreveu um livro maravilhoso em que fala dos problemas dos artistas (Donald Judd: Architecture), cujos instrumentos são diferentes daqueles dos arquitetos, mas têm os mesmos objetivos.

O senhor escreveu um texto para a exposição os amantes a modernidade e o pós-modernismo no norte de Portugal (parte da mostra des-continuidade), em que defende que a arquitetura ali produzida faz uma citação do movimento moderno, cuja empatia se dá mais pela "pele", ou seja, pelo revestimento, do que pela ideologia do próprio movimento. Poderia explicar melhor essa situação?
Ninguém acredita mais na casa como máquina para habitar e o que restou desse projeto foi a imagem da estrutura recoberta com panos elegantes, como na tela O Terapeuta, de Magritte. O moderno e o pós-moderno são as duas faces da mesma moeda: o modernismo e a modernidade. Uso a imagem de O Terapeuta porque existe uma vida interior. Em função da técnica, o arquiteto procura encontrar o material, seguir o custo, as áreas estabelecidas, portanto ele fica só com o aspecto exterior. Ele deve ser lúcido para não se tornar um poeta da lamentação. Essa é a condição da arquitetura atual, que insistimos ainda em ser, como em O Terapeuta.


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