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3/Abril/2009

Solano Benitez: "a crise traz à tona a necessidade da dimensão coletiva em detrimento da individual"


De passagem pelo Brasil, o arquiteto paraguaio, um dos principais emergentes da arquitetura latino-americana, concedeu entrevista à revista AU. Confira alguns trechos da reportagem:


Por Bianca Antunes

Soluções novas, experimentação técnica e controle de custos norteiam a arquitetura do paraguaio Solano Benitez, que lança um novo olhar para os projetos: um olhar para a transformação. "Ter pouco dinheiro é sempre uma condição interessante. Boas soluções surgem quando você elimina um zero do seu orçamento", assegurou Benitez em palestra na FAUUSP, realizada dia 30 de março.

Divulgação: Solano Benitez
"O olhar do arquiteto não deve ser para a história da cultura, é um olhar para a história da técnica, rico em recursos e possibilidades"


A palestra teve apresentação de Paulo Mendes da Rocha, que destacou o trabalho do arquiteto como "um discurso que pode continuar em um mudo que muda constantemente". E continua: "Benitez tira a essência da cultura de seu país. Trabalha com intuição: faz o novo a partir de suas origens. E traz uma mensagem poética, de um mundo que agrega a todos, sempre com uma mensagem de como continuar".  

Benitez conquistou a plateia explicando as principais características de seus projetos, como a sede da Unilever, duas residências e os projetos do Partido Comunista e do edifício Alhambra, todos no Paraguai. E, no dia seguinte, recebeu a redação da revista AU para uma entrevista, às vésperas de uma viagem aos Estados Unidos onde, juntamente com o brasileiro Angelo Bucci, participou da conferência Latitudes: Architecture in the Americas, na Utsoa (University of Texas at Austin School of Architecture).

Leia, abaixo, trechos da entrevista. A matéria completa os leitores podem conferir na edição de maio da revista AU (AU 182).

Como é sua relação com os arquitetos no Brasil? Existe uma cooperação?
Tenho o privilégio de ter uma amizade de 15 anos e uma relação de muita proximidade com Alvaro Puntoni e com Angelo Bucci, que foram os primeiros profissionais brasileiros que conheci. E hoje as tecnologias desenvolveram muitas possibilidades de comunicação. Estamos todos trabalhando, mas é possível mandar um email e dizer: "Ah, Alvaro, o que você está fazendo?" Isso faz com que os vínculos fiquem cada vez mais próximos. Além disso, estamos em um momento interessante: já temos 40 e tantos anos. Começamos a ocupar lugares nas estruturas das instituições, e o que começou com uma relação de amizade, estimulada somente pelo prazer de conhecer a obra do outro, passa a ter uma característica institucional mais forte, porque já se pode falar do relacionamento da FAUUSP com a universidade em que dou aulas em Assunção, por exemplo.

Com que tipo de ações?
Workshops, intercâmbio de estudantes, trabalhos de pesquisa conjuntos. Ontem na palestra eu falei muito sobre conhecimento. Não somente de chegar até o conhecimento e de divulgá-lo, mas também de fazer um novo conhecimento. Essa condição é que vai transformar positivamente nossa relação com a sociedade, com um vínculo muito mais forte. Não somente um vínculo especulativo entre quem detém conhecimento e quem não, mas de quem produz um conhecimento que é liberado para a sociedade...

Divulgação: Solano Benitez
Edifício Alambra
Você citou o Paraguai como um território que precisa ser repensado. Essa é uma situação que se pode transpor a toda América Latina, não?
O arquiteto tem de possibilitar a "habitabilidade" da vida do homem na Terra. O desenvolvimento da nossa sociedade é um percurso que atravessa diferentes estágios. Mas a responsabilidade é sempre a mesma. Alguns erros conduzem a outros e a persistência de erros produz catástrofes. Mas a ação do homem é possível de ser bem dirigida, é possível produzir uma mudança positiva, uma transformação.

Você fala sempre sobre o olhar para a técnica como caminho para nos desenvolver como sociedade. Isso se insere nesse contexto de repensar o território...
O olhar do arquiteto não deve ser um olhar cultural, não deve ser para a história da cultura, é um olhar para a história da técnica, rico em recursos e em possibilidades. Olhando para a história da técnica, podemos descobrir tudo o que o homem fez e tentamos fazer melhor. Até algo que antigamente não deu certo, é possível que seja uma receita possível hoje. Nós, que trabalhamos com a "habitabilidade", temos esse olhar técnico, de pensar todo o tempo quais são as coisas boas e ruins e como tentar mudar isso.

Divulgação: Solano Benitez
"Começamos a ter uma postura de resistência, de mostrar melhores condições, de inspirar a sociedade"

Os arquitetos hoje estão fazendo isso?
Estamos vivendo um momento um tanto difícil. Acredito que nos últimos anos, a condição visual da arquitetura era a condição máxima, toda a especulação da arquitetura era uma especulação formal, de quem projetava a forma mais assim ou mais assado. Mas acho que essa forma de produzir não tem muito jeito nem se sustenta. A necessidade de produzir novos conhecimentos, de enfrentar os novos problemas, é sempre uma condição importantíssima. Hoje, por exemplo, é muito fácil conseguir informação. Você pode digitar "as dez melhores casas da América Latina" na internet. E chega uma coleção de dez residências, você introduz isso em um software tal que consegue uma casa que une uma obra com a outra a está tudo feito. E aí já não há diferença entre o projeto que pode fazer o mestre de obras, o desenhista, o designer, o arquiteto. Porque fica-se muito concentrado na visualidade. Por esse lado, o arquiteto deixa de ser importante dentro da estrutura social. Nós não podemos responsabilizar a sociedade de que o arquiteto não tem voz, porque o arquiteto não está acrescentando dentro da sociedade. Mas à medida que o arquiteto se torna capaz de transformar sua vida, suas possibilidades de obra, ele se converte automaticamente em um motivador social.

Nas duas vezes em que você mostrou casas na palestra, disse que não queria apresentar uma casa. Por quê?

Divulgação: Solano Benitez
Casa Abu & Font
O problema é filosófico sobre a residência individual. Quem tem dinheiro pode comprar um terreno em um bom lugar, mas com essa mentalidade, quem não tem dinheiro tem de comprar um terreno pior, muito longe, sem infraestrututra, serviço. A residência individual é um problema na cidade. Na minha cidade, a residência individual é a expressão natural. Assunção resolve o problema de crescimento da população com crescimento da cidade. Mas isso é insustentável. Temos de densificar nosso território, temos de densificar a cidade. E portanto temos de esquecer o território individual como máxima expressão do trabalho. Mas a residência tem outra característica: é preciso inventar alguma coisa para que seja interessante, porque é uma casa, todos conhecem o programa de uma casa. É preciso utilizar a experiência do projeto dessa casa como um recurso para tentar fazer outras coisas no futuro. Dar-se conta de que o interesse não está aí, na casa em si, mas na possibilidade de se habilitar para construir depois outras coisas, como se fosse um laboratório de possibilidades de como o arquiteto irá conduzir seu trabalho e suas experimentações.

Em compensação, é muito mais fácil encontrar projetos de casas unifamiliares, principalmente entre os jovens arquitetos. Por quê?
Porque para fazer ações coletivas é preciso fortalecer as sociedades. Nesta época de individualismo é muito difícil, é um trabalho extra de política, de convocar as pessoas, de explicar uma e outra vez. Mas o momento atual é muito interessante porque a crise vai colocar as coisas em seu lugar, vai demonstrar que aquilo era insustentável, porque precisa de mais segurança, de vigilância. A crise deve mostrar que a dimensão coletiva é mais do que necessária. Quando fazemos pesquisas de desenvolvimento econômico, em uma época onde o "gosto ou não gosto" impera, questões como ser mais eficiente, utilizar menos materiais, ser mais rápido, ser termicamente melhor não são levadas em conta. Mas quando a crise aparece, tudo isso começa a ser uma arma muito forte para refletir.

Vocês já sentiram o impacto da crise?
Veja, eu moro no Paraguai. Nós nunca tivemos um tempo sem crise. A crise é a nossa vida. Eu falei na palestra que nós somos uma porção da Argentina que fica no Brasil. Somos uma nação que está totalmente atravessada pela influência desses dois grandes países e de seus ciclos econômicos. Mas a crise econômica que começa no final da ditadura do Stroessner, e que acompanha o tempo todo o processo da nova democracia do Paraguai nunca teve um final, sempre tivemos um ano pior do que o outro e que o outro. Somente 2008 foi incrível, por causa do preço da soja no mercado internacional. Mas a produção de soja concentra todo o capital em uma ou duas pessoas. Os indicadores econômicos estão bem, mas não necessariamente atingem a todos.

E como trabalhar nesse cenário?

Enrico Cano
Unilever

Começamos a ter uma postura de resistência, de mostrar melhores condições, de inspirar a sociedade. Quando construímos nosso escritório, enfrentamos o mesmo problema de um cliente qualquer: dinheiro, trabalho, satisfazer todas as necessidades, solucionar tudo. E quando começamos a pensar, a produzir, liberamos oportunidades para que todos também pudessem fazer, e isso é muito bom. Mas é um processo difícil, porque sempre pensamos que são projetos importantes para que o Estado comece a desenvolver, e nunca fomos escutados. Só quando as multinacionais, que sempre estão atentas às possibilidades da região, descobrem o nosso trabalho, ele automaticamente se torna visível.


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