Símbolo da ascensão da elite cafeeira santista do século XIX, o teatro Guarany, fundado em 1882, retoma sua opulência mais de meio século depois de seu declínio. Tombado desde 1980 pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), o teatro começou a ser restaurado no início de 2007 e deve ser entregue em dezembro deste ano.
Desenvolvido pela Secretaria de Planejamento da Prefeitura de Santos, com a autoria do arquiteto Ney Caldatto Barbosa e colaboração do arquiteto Agnaldo Secco Jr, o projeto propôs a recuperação das características arquitetônicas originais, restaurando os elementos decorativos, acabamentos e esquadrias, e refazendo a planta inspirada nesse período, já que o espaço do teatro passou por múltiplos usos ao longo das décadas e perdeu algumas de suas características.
O projeto propôs a reconstrução dos elementos principais do teatro foyer, com platéia, palco, camarins e camarotes, recriando a lógica do espaço original. Uma prospecção arquitetônica para identificação dos fragmentos do palco, paredes e pisos, apontou com precisão a locação das cotas originais. Face ao completo estado de abandono e degradação que quase levou o edifício à total ruína - um incêndio destruiu todo seu interior logo após o anúncio de tombamento pelo Condephaat - as obras foram executadas com cautela, principalmente em relação às paredes remanescentes.
As paredes em alvenaria de pedra foram consolidadas estruturalmente, com a finalidade de garantir sua estabilidade, e reconstruídos trechos que haviam desmoronado. Uma nova estrutura em concreto armado foi executada de modo a evitar qualquer dano nas paredes antigas e suportar as cargas dos pisos superiores e telhado. Este, executado com tesouras em estrutura de aço recoberto com telhas de barro tipo francesa, seguindo o desenho original.
As fachadas foram completamente restauradas, "seguindo as características da arquitetura eclética do início do século XX". O revestimento seguiu as técnicas tradicionais: argamassa de cal e areia, permitindo uma compatibilidade com a existente.
Os elementos decorativos foram restaurados in loco, por meio de réplicas fundidas em argamassa armada. As esquadrias de madeira também foram reproduzidas com réplicas dos modelos que resistiram ao incêndio.
Segundo o arquiteto Ney Caldatto Barbosa, foram projetados novos espaços no interior do teatro, atrás do antigo palco, permitindo a construção de salas de aula e laboratórios, além de um novo volume horizontalizado instalado no anexo lateral, para viabilizar as atividades da escola de teatro que funcionará no local. "Mesmo assim, algumas modificações funcionais foram realizadas, atendendo as necessidades contemporâneas e as novas atividades de escola, porém respeitando o partido arquitetônico original", afirma.
O teatro Guarany integra um intenso processo de revitalização pelo qual o Centro Histórico de Santos tem passado nos últimos 5 anos. O Programa Alegra Centro, criado pela Prefeitura vem fomentado o desenvolvimento econômico da região central, produzindo mais de 200 imóveis restaurados e quase R$ 100 milhões investidos pela iniciativa privada e poder público. O restauro do Guarany foi orçado em R$ 6,7 milhões.