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10/Fevereiro/2010

ABECE defende auditoria do projeto estrutural em paralelo a sua elaboração


Presidente reconhece que os projetos não têm mais o detalhamento de 20 anos atrás, mas rejeita verificação em todos os casos.


Ana Paula Rocha

A checagem do projeto estrutural por um segundo profissional tem se tornado uma prática comum nas construtoras do estado de São Paulo. As empresas recorrem à verificação para enxugar custos, garantir a segurança dos empreendimentos e evitar patologias futuras.

"As obras mudaram no Brasil, os prédios estão mais altos e as estruturas mais arrojadas. O método construtivo é um convite para invadir o coeficiente de segurança", explica Mauricio Bianchi, coordenador do Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP. "Quando se leva um projeto para ser verificado por outro profissional é uma coisa muito boa, que não pode ser encarada como falha dos profissionais, caso encontrados alguns erros. Com a velocidade das obras e as pessoas sem tempo, estamos correndo um grave risco de grandes acidentes, por isso defendo a verificação", completa.

Em entrevista, o presidente da Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural), Marcos Monteiro, reconhece que os projetos desenvolvidos hoje possuem um nível de detalhamento muito inferior aos de 20 anos atrás, o que poderia ocasionar erros, e explica o que as construtoras devem fazer para garantir a qualidade do projeto estrutural.

Divulgação: ABECE
Marcos Monteiro, presidente da ABECE
Qual o posicionamento da ABECE quanto a verificação de projetos estruturais?
Procedimentos de verificação de projetos estruturais são comuns e, em alguns casos, obrigatórios em várias partes do mundo, por imposição de órgãos públicos ou como condição da seguradora para efetuar uma apólice de responsabilidade civil profissional. Para a Abece, isso não é motivado pela falta de confiança nos profissionais de projeto, mas sim é um reconhecimento da grande responsabilidade que envolve o projeto estrutural e dos enormes custos gerados na recuperação e manutenção de estruturas mal concebidas ou especificadas.

Mas a qualidade dos projetos estruturais caiu nos últimos anos?
Todo projetista reconhece que os projetos desenvolvidos hoje possuem um nível de detalhamento muito inferior ao de 20 anos atrás. Nos últimos 20 anos, a pressão pela redução de custos de projetos foi absurda. Hoje, o número de horas dedicado ao desenvolvimento de um projeto é cerca de 40% inferior ao de 20 anos atrás. Além disso, o processo de informatização levou algumas empresas a eliminarem desenhistas, projetistas e verificadores na busca da otimização dos processos produtivos por intermédio do corte de etapas, mas que também serviam como filtros e melhoravam a qualidade do projeto.

Quais os erros mais comuns nos projetos estruturais?
É necessário que se faça a seguinte diferenciação: erros conceituais e erros de detalhamento. O projeto estrutural define milhares de informações como bitola, formato e comprimento de cada ferro, as dimensões de cada peça de concreto, procedimentos de execução etc. Daí, a redução de tempos de projeto e do número de pessoas envolvidas na sua elaboração tem causado um aumento de erros de detalhamento, inclusive em grandes escritórios. São erros, em geral, percebidos na obra e que não têm relação com a capacidade técnica do profissional, mas sim com falhas no seu processo produtivo. São erros muito diferentes dos erros conceituais, que podem levar a decisões equivocadas de projeto, a graves patologias e até a uma ruína da estrutura. Os erros conceituais podem ser ocasionados pela inexperiência, pela incapacidade técnica, ou ainda, para utilização inadequada de softwares, sem um processo de validação dos resultados, pela necessidade de se entregar um projeto rápido, por ter se cobrado barato.

Qual a opinião da associação sobre a checagem usada para se enxugar o projeto estrutural, encontrando pontos que podem ser trabalhados de outra forma com a mesma segurança?
Essa é uma visão muito perigosa. As verificações/auditorias melhor sucedidas são aquelas em que projetista e verificador atuam em conjunto, na busca do melhor resultado para o cliente. Contratar uma verificação com meta de "enxugamento" de consumos transforma esse trabalho em competição, em um desafio. A Abece rejeita veementemente esse tipo de atuação, inclusive, em seu Código de Conduta.

Como a checagem deve ser feita então?
A entidade diferencia a verificação, realizada sobre um projeto já finalizado e a auditoria, em que o auditor caminha junto com o projetista durante o desenvolvimento do projeto, discutindo conceitos, estabelecendo critérios e validando cada uma das etapas de projeto. Assim, a entidade recomenda sempre a realização da auditoria desde o início do desenvolvimento do projeto, tendo-se como resultado um projeto amadurecido e dentro de prazos compatíveis com as necessidades da construtora. A verificação ficaria apenas para situações em que não houve a auditoria e surge alguma dúvida quanto à qualidade do projeto desenvolvido. Esse também é o entendimento da NBR 6118 em seu item 5.3.2.

A empresa deve apresentar a memória de cálculo como parte do projeto?
Em seu item 5.2.3.1, a NBR 6118 prescreve "O produto final do projeto estrutural é constituído por desenhos, especificações e critérios de projeto", ou seja, a memória de cálculo não faz parte do produto final do projeto estrutural. O contratante tem o direito de solicitar a elaboração do memorial de cálculo, devendo remunerar o projetista por esse serviço adicional. Estudos mostram que a elaboração de um memorial de cálculo formal pode consumir de 20 a 30% das horas totais de desenvolvimento de um projeto. Por outro lado, é importante salientar que de posse dos desenhos, especificações e critérios de projeto, o verificador tem todas as informações necessárias para desenvolver os seus trabalhos, ou seja, o memorial de cálculo não é imprescindível para a realização de uma verificação.

Por fim, o que as construtoras devem fazer para garantir a qualidade do projeto estrutural?
Existem cinco pontos que, se respeitados pelo contratante, minimizam os riscos na contratação de um projeto estrutural: alocar valores de projeto compatíveis no orçamento do empreendimento (Tabelas de Honorários de Referência); contratar projetistas com bom histórico profissional; exigir critérios mínimos de desenvolvimento de projetos (Escopo de projetos, Recomendações); estabelecer prazos adequados para desenvolvimento dos projetos; e definindo rotinas de recebimento de projetos (validação interna ou terceirizada).

A Abece cadastra profissionais auditores de projeto, que se comprometem a seguir as recomendações propostas pela entidade e são indicados pela associação para execução de serviços de auditoria/verificação.


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