O Governo de São Paulo anunciou na última quinta-feira, dia 4 de junho, o início das obras da Nova Marginal do Rio Tietê. Serão ampliados 23 quilômetros de pistas de cada lado para a criação de três novas faixas. Também serão construídos quatro novas pontes (Complexo Bandeiras, Cruzeiro do Sul, Tatuapé e Complexo Dutra/ Castelo Branco) e três viadutos para melhorar a fluidez das vias local, auxiliar e expressa.
O empreendimento total está orçado em R$ 1,3 bilhão e terá investimentos do governo do Estado e das concessionárias que administram as rodovias Bandeirantes-Anhanguera e Ayrton Senna-Carvalho Pinto. A previsão é de que as pistas auxiliares sejam concluídas em março de 2010 e as pontes e viadutos em outubro do mesmo ano.
Em documento oficial, o IAB-SP (Instituto dos Arquitetos do Brasil - Regional São Paulo) se manifestou contra as obras de expansão da Marginal do Tietê. Segundo a entidade, o projeto vai melhorar a circulação na via, mas vai prejudicar o trânsito das ruas da área central da cidade. Além disso, o IAB também critica a retirada das arvores, da área permeável dos taludes e da faixa ciliar do rio para dar lugar a pistas de rolamento.
Confira na íntegra a Moção de Protesto do IAB-SP:
Moção de Protesto e Repúdio
Nós, arquitetos membros do Grupo de Patrimônio do IAB-SP - Instituto de Arquitetos do Brasil - São Paulo, achamo-nos no dever profissional e cidadão de redigir este documento público, através do qual manifestamos nossa total perplexidade e repúdio ao projeto de ampliação das pistas da via Marginal do rio Tietê ao longo de 15 quilômetros a partir do anel viário conhecido como "Cebolão", e igual ou maior repúdio à construção de duas alças de acesso para fazer a ligação entre a via expressa (Marginal do Tietê) e duas avenidas locais (Avenida Tiradentes e Avenida Cruzeiro do Sul).
Em total contradição com o projeto do Rodoanel - que corretamente objetiva desafogar o tráfego veicular da área urbana do município -, a ampliação do número de faixas de rolamento das Marginais do Tietê constitui-se num indutor à circulação de veículos naquela área central da cidade, negando todo o embasamento conceitual de tráfego que guiou os estudos de implantação do Rodoanel.
O projeto pretendido zomba, também, do massivo investimento que foi feito, pelo Governo do Estado, na recuperação dos taludes do rio Tietê através da implantação de rico projeto paisagístico que incluiu o plantio de árvores, árvores que serão totalmente suprimidas, assim como a área permeável dos taludes e faixa ciliar do rio, para dar lugar a pistas de rolamento.
Nas grandes metrópoles do mundo - veja-se o recente exemplo da cidade de Seul, Coreia, visitada pelo Prefeito de São Paulo no mês de maio -, os rios vêm merecendo tratamento oposto: projetos que abordam os rios como marcos hidrográficos do território urbano, e que se apropriam desses marcos como elementos de qualificação da paisagem urbana, inibindo a sua conexão com o automóvel, incentivando a sua conexão com o pedestre e com a vegetação urbana.
As duas alças viárias pretendidas constituem-se em equívoco maior, por diversas razões urbanísticas.
Primeiro equívoco: o projeto baseia-se numa premissa estreita, reduzindo a questão à solução de um problema de tráfego veicular, qual seja: eliminar pontos de estrangulamento de tráfego. Ora, desafoga-se aqui, empurrando para adiante o ponto de estrangulamento - pois a quantidade de veículos circulando não diminui com essa providência. Isto é racional?
Segundo equívoco: Para "empurrar" para outro local o ponto de estrangulamento, vale o custo de rasgar e poluir a paisagem com viadutos? Note-se um dado importante: todas as pontes urbanas que cruzam o rio Tietê ligam vias locais e, como tal, têm seu traçado bastante ortogonal e perpendicular ao rio. As duas alças pretendidas têm, ao contrário, traçado em curva, denunciando sua mera função rodoviarista, incompatível com o caráter urbano das pontes existentes.
Terceiro equívoco: o projeto das duas alças carece de um mínimo de sensibilidade e de compreensão do caráter da paisagem urbana paulistana daquele trecho da cidade, pois se intromete nas visadas do conjunto da Ponte das Bandeiras, a mais bonita e bem composta, do ponto de vista arquitetônico, das pontes que atravessam todos os rios da cidade de São Paulo.
A Ponte das Bandeiras carrega alto valor simbólico, pois está implantada no exato local onde no passado existiu a antiga Ponte Grande, a primeira que transpôs o rio mais paulistano da cidade. O comprometimento da visão do conjunto da Ponte das Bandeiras (ponte-tabuleiro, cabeceiras, torres) será deletério, definitivo e irreversível, caso vingue a construção das inadequadas alças rodoviárias sobre o rio.
Por prever os prejuízos urbanísticos da realização da ampliação das Marginais do Tietê, e principalmente os prejuízos paisagísticos decorrentes de uma eventual construção das duas alças viárias, somos impelidos a solicitar a todos os atores e instâncias responsáveis pela viabilização desse equivocado empreendimento rodoviarista que avaliem cautelosamente o projeto, e decidam pelo bem da preservação da história, da memória e do decoro urbanístico.
Autor da Moção: Arquiteto Vasco de Mello