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29/Agosto/2008

Seminário destaca necessidade de racionalização das obras e segurança ao fogo dos edifícios altos


Evento, que discutiu a evolução das estruturas, trouxe o especialista em segurança contra incêndio Jose Luis Torero e Victor Fuentes, que apresentou a tecnologia do edifício chileno Titanium, com 52 andares


Heloísa Medeiros

Um balanço dos dez anos de realização do "Seminário de Estruturas - Projeto e produção com foco na racionalização e qualidade", promovido anualmente pelo SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), mostra a evolução do setor e das discussões que despertam o interesse dos construtores. A décima edição do Seminário, realizado pelo Comitê de Tecnologia e Qualidade (CTQ) do Sinduscon-SP, contou com cerca de 300 participantes, que se reuniram no Hotel Grand Hyatt, em São Paulo, no dia 28 de agosto.

"Desde o primeiro evento, muitos problemas foram equacionados, assim como novos surgiram e outros ainda persistem. Só que agora, com a conjuntura econômica favorável, os bons problemas é que predominam", diz Romeu Chap Chap, presidente do Conselho Nato do Secovi-SP.

O presidente do Sinduscon-SP, Sérgio Watanabe, compartilha da visão de Chap Chap, e acredita que a construção civil saberá vencer as dificuldades, tais como falta de mão-de-obra qualificada, elevação dos preços dos materiais, informalidade e alta carga tributária.

Segundo Jorge Batlouni Neto, membro do Grupo de Trabalho de Fundações e Estruturas do SindusCon-SP, o primeiro seminário reuniu 80 pessoas e agora são 300 participantes. "Sempre trazemos temas e obras importantes. Nessa edição, mostramos edifício Titanium, do Chile, com 52 andares. E como atualmente estamos discutindo a segurança ao fogo no Brasil, em função da revisão das normas, trouxemos um dos maiores especialistas mundiais no assunto, o engenheiro Jose Luis Torero", diz. Segundo Batlouni, apenas aumentar o cobrimento das armaduras não é a solução. "Teremos um custo a mais que não irá melhorar de forma significativa o desempenho na proteção ao fogo. Nossa linha de raciocínio é muito parecida com a do professor Torero, que privilegia um bom projeto arquitetônico e de estruturas, cuja concepção seja preventiva. Isso é muito mais eficiente do que reforçar as peças estruturais", afirma.

Retrato da evolução do setor
Paulo Sanches, coordenador do CTQ, avalia que o seminário vem retratando o avanço da construção civil nestes últimos 10 anos. "Naquela época as obras ainda eram feitas na base da improvisação. Hoje, temos a industrialização cada vez mais forte nos canteiros. Nós acompanhamos de perto todas estas etapas, desde a criação do Comitê de Tecnologia e Qualidade, há 14 anos. Essa experiência é tão positiva que vamos criar um Comitê nacional para disseminar novas tecnologias e incentivar a troca de conhecimento pelo País", anuncia. Segundo ele, isso já acontece, pois as incorporadoras paulistanas estão em vários estados, associando-se a parceiros locais. "Já é uma forma de fazer um upgrade tecnológico no país todo. Além disso, há diversas empresas boas em outros estados. O comitê nacional será uma oportunidade a mais para intercâmbio de idéias e conhecimentos", destaca.

Sanches acredita que as empresas já estão preparadas para enfrentar o desafio da falta de mão-de-obra, por meio da adoção de tecnologias industrializadas que possam reduzir o número de operários e gerar grande escala, com ciclo mais curto de obra. "O setor imobiliário precisa agora produzir para a faixa de renda de 5 a 10 salários mínimos, onde há demanda muito grande por unidades. Isso acontece no México, na Colômbia, na Venezuela. Visitamos estes países o vimos que é viável fazer isso", acrescenta. Ele cita a necessidade de encontrar soluções construtivas que permitam a execução de várias etapas da obra simultaneamente. E cita o sistema das casas e pequenos edifícios construídos com paredes de concreto, que são ao mesmo tempo fechamento e estrutura, que ficam prontas em cinco dias. O sistema já está sendo utilizado pela Bairro Novo, empresa criada pela Gafisa e Odebrecht, em Cotia (SP), voltada a empreendimentos para a Classe C.

O engenheiro de estruturas Ricardo França, professor da Poli-USP e diretor da França e Associados Engenharia, que participou com suas palestras em todas as edições do seminário, confirma também o avanço na sua área. "O aumento da capacidade computacional e o advento da internet melhoraram os nossos serviços, contribuindo com o aumento da produtividade nos projetos de estrutura. As normas de estruturas, com foco na durabilidade, foram um avanço e tiveram o mérito de organizar e balizar modelos melhores, possibilitando melhores projetos estruturais", afirma. Para ele, os programas nacionais de projeto e cálculo de estruturas, em muitos aspectos são mais completos que os de fora e possibilitam não só a análise da estrutura, detalhamento e dimensionamento, como a integração dos três aspectos.

"As análises ficaram mais abrangentes, o que permite analisar diferentes opções estruturais e antecipar problemas de congestionamento de armaduras. Hoje, num processamento com pórtico espacial, já mostra as deformações da grelha, o que ajuda na avaliação dos deslocamentos de vigas e lajes, proporcionando um grau de sofisticação grande. Na parte de cálculo de pilares, conseguimos analisar a flexão oblíqua, que ajuda na redução da taxa de aço. Sem falar na grande evolução de troca de arquivos, que ajuda na atualização controlada dos projetos e diminui a necessidade de reuniões", analisa. Segundo França, houve uma profissionalização no ambiente de projetos em todos os níveis, a incorporação da coordenação e compatibilização entre eles, e uma maior compreensão da importância dos projetos e sua conseqüente valorização. "Quando falávamos na importância de o projeto estrutural ser feito antes do projeto legal, era uma utopia. Hoje isso é normal. O fato de podermos lançar a estrutura antes faz a diferença", afirma.

Atrações internacionais
Os destaques internacionais do seminário foram o engenheiro Victor Eduardo Garcia Fuentes, gerente técnico da Constructora ASL Senarq (Grupo Sencorp), do Chile, que falou sobre o edifício alto Edifício Titanium La Portada, em Santiago. E o professor de Engenharia de Segurança contra Incêndio, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, o peruano Jose Luis Torero, um dos maiores especialistas mundiais no assunto, que falou sobre segurança contra incêndio em edifícios altos e as implicações para as estruturas.

Victor Eduardo Garcia Fuentes descreveu os grandes desafios do Titanium La Portada, o edifício mais alto do Chile, com 52 andares e 190 m de altura, categoria Triple A, cujo investimento deverá chegar a 150 milhões de dólares. O edifício, com 72 mil m² de área de escritórios, conta com sete subsolos, dois helipontos, tem certificação Green Building e foi projetado para resistir a terremotos. Sua concepção arquitetônica, em forma de velas de barco preenchidas pelo vento, resultou numa concepção estrutural ousada.

Testada em túneis de vento, a estrutura é de concreto armado, sustentada por um núcleo rígido, pórticos perimetrais e lajes protendidas. Nos extremos, foram executadas estruturas diagonais metálicas, com dissipadores de energia, para minimizar as deformações em caso de terremotos. Metade da obra já foi erguida e neste momento o canteiro conta com 800 operários. Dentro de 8 meses, a obra receberá 400 containeres da China com materiais de acabamento como mármore, granito, revestimentos cerâmicos, entre outros.

Já Torero destacou que a engenharia de segurança contra incêndio passa por grandes mudanças, em razão das novas e ousadas concepções estruturais dos edifícios, principalmente os prédios altos, que criam novos desafios na segurança ao fogo. "São edifícios com investimentos altíssimos, cujo patrimônio necessita ser protegido, e que abrigam grande número de pessoas, cujas vidas precisam ser salvas em caso de incêndio. Além disso, as grandes lajes livres, sem o recurso da compartimentalização dos espaços com paredes, são mais suscetíveis à propagação do fogo e fumaça", explica.

Ele defende um novo paradigma de atuação do engenheiro de proteção ao fogo, que deve entrar no processo desde a concepção arquitetônica e estrutural, intervindo e acompanhando outros projetos complementares, como os de ar condicionado, elétrica, cabeamento, entre outros. "Precisamos integrar tudo isso, de maneira a criar um projeto de combate e proteção contra incêndios mais otimizado, com o menor custo e a maior eficiência possível. Se o engenheiro só fizer a intervenção no momento da inspeção das instalações de incêndio, sem participar do processo e verificar se o que estava previsto no projeto foi efetivamente executado, os custos de eventuais adaptações serão muitos maiores", adverte Torero.

Para ele, que participou da perícia no World Trade Center depois do atentado de 11 de setembro, nos Estados Unidos, os problemas principais que contribuíram para a propagação do fogo de maneira descontrolada nas torres foram o projeto estrutural, péssimo do ponto de vista de proteção ao fogo, e a falta de manutenção do sistema de proteção contra incêndios. Por isso, ele afirma que, hoje, o engenheiro de segurança ao fogo precisa tornar-se um assessorar do arquiteto e do projetista de estruturas. E avançar no seu conhecimento utilizando modelos matemáticos para prever o comportamento do fogo em relação à determinada concepção estrutural e método construtivo. "A estrutura deve manter sua integridade pelo maior tempo possível durante o incêndio, a fim de que haja tempo suficiente para a evacuação das pessoas. As questões-chave são acelerar ao máximo a evacuação e retardar ao máximo o colapso estrutural, com previsão de redução da fumaça e redução da temperatura", analisa.

Nos edifícios tradicionais, com até 26 pavimentos e estrutura em pórtico (redundantes), o colapso é retardado, resultando em maior tempo para a evacuação. Já nos edifícios altos, com estruturas otimizadas (sem redundância), o comportamento do fogo é muito mais complexo e a evacuação mais crítica. "Nesses casos, para manter as estruturas em pé é necessário entender os modelos estruturais complexos para quantificar o incêndio, simular a  transferência de calor para a estrutura e modelar o comportamento estrutural. Trata-se de um sistema mais sofisticado, que não considera apenas a carga térmica, mas a ventilação e a distribuição espacial. Isso requer modelos de dinâmica computacional de fluidos (CFD), para calcular o comportamento do fogo em detalhe", explica.


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