Em 1º de Setembro a Gafisa anunciou a aquisição da Tenda por meio da incorporação dos ativos da construtora Fit, braço da linha econômica do grupo Gafisa. O anúncio ocorreu após recomendações negativas dos bancos Credit Suisse e Goldman Sachs, que provocaram desvalorização das ações da Tenda em 41%.
A negociação consiste da emissão, pela Tenda, de 240,3 milhões de ações, que serão de propriedade da Gafisa. Na data da incorporação, a Fit precisará ter um patrimônio líquido de pelo menos R$ 405 milhões, e uma posição líquida de caixa de R$ 300 milhões. A Tenda continuará a ser uma companhia listada sob o "Novo Mercado" e terá um total de 400,6 milhões de ações.
Em comunicado ao mercado, as duas empresas descreveram a operação como uma "integração societária de atividades" e afirmaram que a operação não deve afetar as atuais ações em circulação na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo).
Veja a opinião de especialistas do mercado sobre a transação, emitidas por meio de comunicado à imprensa:
Trechos do relatório da Itaú Corretora:
" Em nossa opinião, essa transação irá acelerar a curva de aprendizado da Gafisa no segmento de baixa renda. De acordo com a administração, os formatos Fit, Tenda e Bairro Novo serão mantidos. Em termos de valuation, a transação foi também bastante positiva para a Gafisa. A companhia irá investir R$ 405 milhões (incluindo ativos de caixa e não-caixa) para adquirir 60% da nova empresa. Considerando o número de ações emitidas para a Gafisa, o aumento de capital na nova companhia irá totalizar R$ 1,68 por ação. Acreditamos que a valorização na sessão de negociação de segunda-feira é justificada.
Ainda que a diluição para os acionistas da Tenda pareça considerável, é importante destacar que a "nova Tenda" é uma companhia com um balanço contábil mais sólido, e, portanto, com maiores perspectivas de crescimento do que a antiga companhia. Além da forte posição de caixa, destacamos a larga experiência da administração da Gafisa na gestão de uma das construtoras líderes do Brasil, sua boa comunicação com o mercado e seus altos padrões de governança corporativa. Ainda estamos aguardando dados adicionais de ambas as companhias antes de determinarmos um valuation para a nova empresa".
Trechos do relatório da corretora Fator:
"Acreditamos que o risco de execução da Tenda será menor com o controle da Gafisa, pois a nova empresa é mais capitalizada, possui caixa líquido e maior capacidade de obtenção de financiamentos, inclusive SFH. O aumento do risco da Gafisa com a aquisição da Tenda será menor do que a redução de risco da Tenda com o controle da Gafisa.
Esse é o segundo movimento de consolidação entre as empresas listadas do setor e marca a entrada efetiva da Gafisa no segmento de baixa renda. A Gafisa já atuava no segmento através da FIT e do Bairro Novo (joint venture com Odebrechet) que em conjunto
representam 27% do guidance de lançamentos.
O modelo de negócios da Tenda apresenta dois riscos: (1) não possui construtora própria, o que afeta as margens e a gestão e controle das obras; e (2) utiliza força de vendas 100% própria, o que ocasiona alta taxa de cancelamento de vendas e nível mais alto de estoque. Na comparação com a sua principal concorrente (MRV) a Tenda possui taxa mais alta de cancelamento de vendas e ciclo de construção mais longo (MRV inicia a obra três meses depois do lançamento, comparado com seis meses para a Tenda).
A Gafisa precisa esclarecer qual será o modelo de negócios utilizado na nova empresa. Acreditamos que é muito importante possuir construtora própria e que a composição de vendas ideal seria cerca
de 70% realizado por equipe própria e 30% corretores terceirizados.
O valor de mercado da participação da Gafisa de 60% na Tenda foi avaliado em R$ 901,5 milhões, com base na cotação da última sexta-feira (R$ 3,75). A Tenda precisará elevar o percentual de ações em circulação de 17,6% para 25%, através de subscrição futura de ações e/ou oferta secundária de ações de posse dos controladores da Tenda, para se adequar às regras do Novo Mercado".
Trechos do relatório da Standard & Poor's
"A união da FIT com a Tenda está em linha com os recentes esforços da Gafisa para aumentar sua participação no mercado voltado às classes média-baixa e baixas rendas, evidenciadas pelo desenvolvimento da FIT e da joint-venture Bairro Novo com o grupo Odebrecht.
... a empresa combinada deverá ser uma das maiores do setor imobiliário voltadas ao segmento acessível e com ampla presença nacional.
Os ratings atribuídos à Gafisa refletem o adequado perfil financeiro da empresa; o seu nível de endividamento, embora mais elevado que há um ano, ainda em níveis compatíveis com a sua categoria de rating; a forte expansão de suas operações após a união com a Tenda; o histórico favorável de seus empreendimentos, reflexo do conhecimento e da avaliação competente de seus principais mercados de atuação; e as perspectivas ainda positivas para o setor imobiliário a médio prazo no Brasil.
Em contrapartida, os ratings levam em consideração os desafios e riscos de execução a serem enfrentados pela Gafisa na condução de sua estratégia de crescimento, potencialização pela união com a Tenda; um possível aumento de sua alavancagem financeira em função da ampliação do volume de lançamentos de novos empreendimentos e de construções em andamento; bem como os riscos intrínsecos ao setor imobiliário no Brasil, que historicamente tem se mostrado bastante competitivo e volátil.
O longo ciclo de maturação dos projetos, inerente à atividade imobiliária, mais o forte crescimento planejado pela Gafisa para os próximos anos, criará pressões de capital de giro que podem exigir o aumento da alavancagem da empresa e a redução de sua liquidez em caso de oscilações macro-econômicas. Porém, as bem sucedidas captações de recursos, via emissões ou linhas bancárias, atenuam esse risco, pelo menos num horizonte de médio prazo. Por outro lado, ainda que o efeito pleno da combinação dos negócios da FIT com os da Tenda não possam ser totalmente computados, acreditamos que o compromisso de caixa e os efeitos sobre a alavancagem financeira da Gafisa decorrentes desta união permanecerão compatíveis com a atual classificação de risco".
As ações das duas companhias (veja gráficos abaixo), assim como das empresas do setor da construção civil, estão se desvalorizando no mercado financeiro. Clique aqui e dê sua opinião na enquete da PINIweb sobre a queda das cotações de incorporadoras listadas na Bolsa de Valores.
Desvalorização das ações da Tenda desde 01 de setembro:
Desvalorização das ações da Gafisa nos últimos três meses: