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9/Março/2010

Os desafios de Natal em um futuro globalizado


Por que o Nordeste brasileiro pode se colocar como alternativa de destino para a terceira idade do mundo todo e atrair grandes investimentos imobiliários


Por Ronald de Góes, arquiteto

Historicamente, pela sua situação geográfica, cuja localização, na esquina do continente, o colocam em uma situação privilegiada, o Rio Grande do Norte e sua capital, Natal, estiveram sempre voltados para eventos históricos de repercussão mundial. Mais próxima de Dakar, no Senegal, do que Porto Alegre (RS), ou mesmo Rio Branco (AC), por aqui chegaram os pioneiros da aviação internacional na travessia do Atlântico, como Jean Mermoz e Saint Exupéry, franceses, e Del Prete, italiano, entre outros. Aqui também, Franklin Roosevelt, depois de uma histórica reunião em Casablanca, no Marrocos, com Winston Chuchill, veio pedir o apoio do Brasil e de Getúlio Vargas para o esforço de guerra contra Adolf Hitler e associados. A partir daí se transformaria, com a construção das bases militares, no "Trampolim da Vitória", quando do território potiguar partiam os aviões para as decisivas batalhas pelo petróleo do norte da África. Um historiador potiguar, Lenine Pinto, até defende que, pelas suas condições geográficas, proximidades com a África, condições de navegação, ventos alísios etc., aqui o Brasil foi descoberto. Mas essa é outra história.

Shutterstock
Natal: sol e baixo custo de vida atraem populações de idosos da Europa

Entre o final da Segunda Grande Guerra e a década de 1970, o estado arrastou-se no desenvolvimento, apesar do seu potencial. Vivia da produção de sal (80% da produção nacional) e outros artigos primários. Com o golpe militar, via Castelo Branco, a mecanização das salinas, transformando a produção artesanal em industrial, gerou um colossal desemprego cuja consequência mais imediata foi o grande êxodo de populações inteiras das regiões salineiras (Areia Branca, Macau e Mossoró) para a capital. De 200.000 habitantes, Natal passaria, na época, para quase 500.000. A necessidade de ocupar essa mão de obra e também abrigá-la gerou grandes investimentos na construção de conjuntos habitacionais, via BNH (Banco Nacional de Habitação), e a ampliação do espaço urbano de Natal, antes só ocupando a margem direita do Rio Potengi (ou Rio Grande)  passou a ocupar, então, os tabuleiros da margem esquerda do rio fazendo surgir uma nova cidade. De cada quatro natalenses, um morava em conjunto habitacional, e o antigo padrão urbano desenhado pelo arquiteto italiano Giácomo Palumbo, em 1929, transformou-se numa caótica rede urbana serpenteando (e destruindo), entre dunas e lagoas, a morfologia natural característica do sitio urbano da cidade.

Dois fatos, no entanto viriam modificar este quadro: primeiro, a crise do petróleo de 1974, que obrigou o governo brasileiro a explorar os campos petrolíferos potiguares, principalmente em terra (o estado é hoje o maior produtor terrestre de petróleo do país), numa medida tardia, pois desde 1954 com a fundação da Petrobras, sabia-se que o subsolo do Rio Grande do Norte possuía o chamado ouro negro. O segundo fato foi gerado pela crise na construção civil quando o chamado milagre econômico, em crise, reduziu drasticamente os investimentos, e a alternativa para os empreiteiros foi investir no turismo, onde ainda existia algum dinheiro para financiamentos. A maioria virou hoteleiro. O petróleo e a presença da Petrobras ao lado do turismo e da fruticultura irrigada modificaram a economia do estado.

O que foi um achado para a economia revelou-se um problema para a cidade, pois esses investimentos turísticos agrediam e agridem, ainda, o frágil meio ambiente da cidade, principalmente o seu cordão de dunas representado pelo hoje Parque das Dunas, a maior floresta natural urbana do país (a Floresta da Tijuca, Rio de Janeiro, é artificial) com 1.172 ha - um ecossistema, remanescente da Mata Atlântica, com 8 km de praias virgens, 2,5 km de largura e dunas com altura média de 90 m, colado na malha urbana da cidade.

O delegado da ditadura que governava o estado na época decidiu construir uma via linear, a Via Costeira, ligando a praia de Ponta Negra com a praia de Areia Preta, as duas praias urbanas mais importantes da cidade.

A proposta de intervenção, fundamentada em investimentos imobiliários os mais diversos e suspeitos, sobre as dunas, mostrava um claro perigo para a cidade, pelo que representava em termos de agressão ao sistema dunar com ameaça de soterramento da cidade, e contaminação do lençol freático (responsável, em grande parte pelo abastecimento d''água da cidade), entre outras mazelas. Natal, ainda hoje, só possui 30% de sua malha urbana com coleta, sem tratamento de esgotos, e os poços subterrâneos que a abastecem estão, em torno de 40% deles, contaminados por nitrato.

A reação da opinião publica, do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil), geólogos e geógrafos provocou um recuo do projeto governamental e um redirecionamento da proposta inicial, transformando o que seria um desastre ecológico numa espécie de Cancún potiguar quando, ocupando a faixa mais próxima da praia, em dunas do tipo barreiras, já consolidadas, foi implantada uma rede hoteleira (12 hotéis) que foi o ponto de partida para transformar Natal no pólo turístico que é hoje.

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