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25/Março/2008

Excelência profissional



Mestrado em Habitação do IPT ganha Prêmio de Iniciativa Setorial por formar profissionais aptos a pesquisarem as soluções para os problemas da prática

Quando, em 1997, uma portaria da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) regulamentou a categoria de MP (Mestrado Profissional), foi natural para o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo), um instituto de pesquisa aplicada com mais de 100 doutores no quadro de funcionários e com longa trajetória na cadeia da construção, tirar do chapéu o Mestrado Profissional de Habitação.

Fundado em 1899, o IPT já nasceu com a vocação acadêmica. Ligado à Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), foi criado para atender à demanda de ciência e tecnologia da universidade. Ao longo de sua história, o IPT sempre se envolveu com os problemas da construção civil, adquirindo tradição e acumulando conhecimento. Nos anos 1970, investiu em pesquisas de habitação, oferecendo a alunos de toda a América Latina especialização em habitação. Hoje, não só contribui com o mercado com buscas tecnológicas mas também formando equipes aptas a desenvolver e aplicar pesquisas em tecnologia, por meio de diversas modalidades de pós-graduação dentro de suas áreas de excelência tecnológica.

Para profissionais
O mestrado profissional de habitação é uma resposta à necessidade social de capacitação profissional, diferente da propiciada pelo mestrado acadêmico, que prepara o aluno para a pesquisa e o ensino. Assim como o mestrado acadêmico, o mestrado profissional também é um curso de pós-graduação stricto sensu, avaliado e reconhecido pela Capes/MEC. A diferença está no enfoque, voltado ao desempenho e à qualificação profissionais; e nos horários, mais flexíveis.

Os cursos são disponibilizados em período noturno e fins de semana e exigem do aluno uma média de 8 horas/aula-sala e 8 horas/aula-estudo por semana - e podem ser concluídos entre dois e quatro anos. Até então, a alternativa eram os cursos de lato sensu, como a especialização e o MBA, com duração menor que o mestrado acadêmico, e que não são reconhecidos pela Capes.

Outra diferença do mestrado profissional com relação ao mestrado acadêmico é que deve ser auto-sustentável. A portaria lançada pelo Governo Federal não permite que a universidade pública patrocine mestrandos por meio de bolsas de estudos - uma vez que o aluno não permanecerá na universidade como pesquisador ou professor.

Algumas empresas do setor já têm por hábito investir no crescimento de funcionários. E até instituições estrangeiras têm financiado o trabalho acadêmico desses profissionais. "No entanto, a maioria dos alunos ainda vem por conta própria", revela o engenheiro Mario Yoshizaku Miyake, coordenador de ensino tecnológico do IPT.

"O aluno é formado por quem já está no setor de produção", afirma o engenheiro Vahan Agopyan, diretor presidente do IPT. São alunos mais maduros, em média entre 28 e 40 anos, que já têm uma vida estável, terminaram a universidade há algum tempo, estão inseridos no mercado de trabalho e não podem abrir mão do vínculo empregatício para fazer uma pós-graduação tradicional - que exige disponibilidade integral do aluno. "São profissionais que buscam visão prática e aplicação imediata", complementa o engenheiro Ercio Thomaz, pesquisador e professor do IPT.


Pesquisador faz ensaio de janela no Laboratório de Componentes e Sistemas Construtivos do IPT: alunos têm acesso a laboratórios de ponta

Educação continuada
Aprovada a proposta do Mestrado Profissional em Habitação pela Capes, o IPT inseriu-se no campo da educação continuada. E, logo, ampliou seu leque de mestrados profissionais, incluindo cursos em Engenharia de Computação, Tecnologia Ambiental e Processos Industriais. De suas classes e laboratórios já saíram 425 formandos.

Para ingressar nos mestrados profissionais do IPT é necessário passar por um processo seletivo, dividido em duas etapas. Na primeira, são realizadas a prova de língua estrangeira e uma redação em português. Na segunda, o candidato passa por uma entrevista, onde são avaliados formação acadêmica, a graduação e outros cursos, e a experiência profissional.

Além de moderna infra-estrutura própria para o ensino (salas de aula com recursos audiovisuais e computacionais, rede interna de computadores etc.), o IPT dispõe de vasto expertise e suporte laboratorial e computacional, e freqüentemente ministra cursos com instituições parceiras estratégicas.

Formação em pesquisa
O mestrado profissional capacita a mão-de-obra, atendendo os requisitos de informação das organizações, sejam elas públicas ou privadas. O curso atualiza o conhecimento e supre a lacuna na própria formação do profissional. "Na graduação, as disciplinas são gerais. Para atuar com desenvolvimento e inovação, são necessários conhecimentos e práticas específicos", enfatiza o presidente.

O aluno chega à sala de aula com problemas concretos a resolver e sai com a solução para o seu dia-a-dia, "pois as linhas de pesquisa do IPT o amparam e o subsidiam, além de o ambiente ser propício ao diálogo com os colegas", diz o engenheiro Douglas Barreto, coordenador e professor do Mestrado Profissional em Habitação.

O mestrado profissional oferece disciplinas que induzem o aluno a ter uma formação crítica, levando-o a assumir seu papel de formador de opinião. O curso promove a mudança de postura. "O profissional passa a incorporar o método científico na atividade profissional de maneira automática", ressalta o engenheiro Cláudio Vicente Mitidieri Filho, professor e coordenador da área de mestrado.

Habitação na academia

As atividades do Mestrado Profissional de Habitação foram autorizadas em 1997 pela Capes/MEC, tendo início em 1998. O mestrado coloca à disposição do aluno todo o conhecimento acumulado no IPT na área de construção habitacional, tratando não só de aspectos tecnológicos como, também, gerais, envolvendo Planejamento Habitacional e Políticas Habitacionais e Urbanas. "O IPT só ensina o que sabe", explica o presidente.

O Mestrado Profissional de Habitação promove pesquisas aplicadas, integrando conhecimento tecnológico e atividade profissional; atualiza o participante sobre a cultura tecnológica e de conhecimentos na área específica de trabalho; e amplia o conhecimento do participante por meio do efetivo equacionamento e aplicação de questões práticas de empresas ou do setor público.

O mestrado profissional pretende atender um público constituído por profissionais com formação superior, que atuam nos setores de planejamento, projeto e produção habitacional e nas áreas correlatas; em instituições municipais, estaduais e federais atuantes em áreas associadas à concepção, produção ou planejamento habitacional; empresas produtoras de materiais, componentes e sistemas construtivos; agências financeiras e promotoras de habitação e profissionais do ensino superior; e professores de ensino superior ligados à questão da habitação.



Ao aluno é possibilitada, além do acesso às instalações da Coordenadoria de Estudos Tecnológicos, a utilização do DAIT/Biblioteca durante suas atividades discentes, assim como o acesso às instalações laboratoriais do IPT, quando necessário. O corpo docente é formado por pesquisadores do IPT, professores da Escola Politécnica, consultores e ex-pesquisadores da instituição.

Os alunos que procuram o mestrado do IPT vêm de diversos segmentos ligados ao setor de construção civil abrangendo desde construtoras, consultoria, estatais a professores universitários. Hoje, empresas de diversos segmentos da construção civil mantêm em seus quadros profissionais que cursaram ou ainda estão cursando o mestrado no IPT.

Estrutura de curso
Em sua 21a turma, o Mestrado Profissional de Habitação é quadrimestral e abre processo seletivo duas a três vezes ao ano. Apresentado em duas áreas de concentração, planejamento e tecnologia, é distribuído em um total de 18 disciplinas eletivas mais uma obrigatória e comum a ambas.

Além da Metodologia da Pesquisa, o aluno cursa mais seis disciplinas eletivas, sendo quatro, no mínimo, em sua área de concentração, escolhida no início do curso. Para a sua aprovação, o aluno apresenta, com o apoio do orientador designado, sua Proposta de Trabalho Final, que constitui a fase de pré-qualificação.

Outra atividade obrigatória, após a conclusão dos créditos em disciplinas, é Acompanhamento de Trabalho Final, assistido pelo respectivo Professor Orientador. Realizada pelo aluno, no decorrer do curso, tem o objetivo de desenvolver a proposta de trabalho para o Exame de Qualificação - que deve ser realizado somente com a aprovação em proficiência em língua estrangeira e até o 20o mês de curso - e a elaboração da dissertação.

A conclusão de curso é realizada pelo Trabalho Final, no qual o aluno expõe uma dissertação, desenvolvida a partir do conjunto de atividades do programa do mestrado e cuja abordagem seja, essencialmente, de temas relacionados à sua prática profissional. Para obtenção do título de Mestre o aluno deve se sujeitar a uma banca de Defesa do Trabalho Final composta por três membros, o orientador e mais dois professores convidados (um externo ao curso).

Desde o início do mestrado, já foram concluídas 151 dissertações e contribuem diretamente com o mercado, sendo encaminhadas ao conhecimento do público em diferentes formas, e muitas delas até premiadas. Vale destacar que vários egressos do programa foram premiados.

Qualificação x desempenho
O resultado para o mercado de construção civil é o registro do conhecimento acumulado durante anos, que antes ficava só na prática e agora passa a ser disponibilizado para a sociedade nas prateleiras das bibliotecas. O profissional que cursa o mestrado é mais valorizado e respeitado e dá um salto em sua carreira, obtendo crescimento dentro da empresa ou conseguindo um emprego melhor.

As empresas que investem na qualificação ganham com "uma equipe mais preparada tecnicamente para desempenhar suas atividades, analisar problemas e procurar soluções", justifica o engenheiro civil Sidney Charf, mestre pelo IPT e coordenador de obras de terceiros da Cyrela, que custeou 50% do seu curso e de outros seis funcionários.


O Laboratório de Acústica do IPT ajuda empresas a desenvolver e melhorar produtos, como pisos, forros e divisórias

As pesquisas realizadas no mestrado podem ajudar a empresa a melhorar a sua performance. Foi o caso da Tecnum, que também financia 50% dos cursos para seus dependentes e conta com dois funcionários formados pelo IPT. Graças aos dados levantados na própria construtora para a dissertação do mestrado profissional, o engenheiro civil Jorge Batlouni Neto, mestre pelo IPT e sócio-diretor da empresa, implantou o conceito de desempenho no desenvolvimento de projetos. "Montamos uma metodologia para estimar o consumo de concreto em edifícios. Muito útil para as áreas de orçamento da Tecnum", conta.

O mesmo ocorreu com a gerenciadora, FCI, que trabalha com projetos e gestão de empreendimentos em parceria com associações comunitárias e cooperativas habitacionais. Um dos sócios, o engenheiro civil Flavio Ximenes, cursou o mestrado do IPT, onde desenvolveu métodos para melhorar os processos de gestão da obra, de treinamento dos mutirantes e de otimização da capacidade produtiva desses agentes. "As obras passaram a ter um controle de qualidade mais sistematizado, o que está sendo absorvido também pelas associações comunitárias", alega.


Encontro pelo social


Camila Maleronka, Cristina Boggi Raffaelli, Catharina Christina Teixeira, arquitetas; Flávio Felix Ximenes, engenheiro, e a arquiteta Alessandra D-Avila Vieira encontraram-se no mestrado profissional do IPT e fundaram uma ONG para dar assessoria técnica a mutirões e iniciativas habitacionais populares. Em 2006, realizaram o I Fórum de Habitação Social

Os mestres engenheiro Flávio Felix Ximenes e as arquitetas Cristina Boggi Raffaelli, Catharina Christina Teixeira, Camila Maleronka e Alessandra D'Avila Vieira encontraram-se no Mestrado do IPT, graças ao interesse comum pelo assunto moradia. Com o mestrado profissional de habitação tornaram-se parceiros, e alguns sócio-fundadores da Brasil Habitat, uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Publico), voltada para o trabalho de assessoramento técnico de iniciativas populares e não-lucrativas para solução de problemas habitacionais. Com o término do curso ficaram ansiosos pela inserção de suas dissertações na comunidade profissional e acadêmica, na época realizada de maneira pontual. "Então, ocorreu-me a idéia de divulgarmos esses trabalhos em um fórum", lembra Catharina. Sem grandes pretensões, o Fórum Habitação Social, realizado em 2006 costurou os cinco trabalhos de conclusão, criando uma oportunidade para a troca de idéias. Participaram do evento outras assessorias, profissionais de instituições como a Caixa Econômica Federal, Sehab (Secretaria Municipal da Habitação) Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação), CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), associações comunitárias e a academia como um todo. Além da colaboração da arquiteta Ana Carolina Bierrenbach (doutora pela UPC-Barcelona - Espanha), que abriu o Fórum mostrando a produção de Lina Bo Bardi com a Habitação Popular.

"Foi muito gratificante sentir a reciprocidade das pessoas que estavam interessadas no que tínhamos a dizer", honra-se.


A caminho da patente



O aproveitamento de escória de aciaria a oxigênio como matéria-prima para fabricação de clínquer de cimento foi o objeto de estudo do aluno Fabiano Ferreira Chotoli, químico-assistente do CT-Obras/Laboratório de Materiais de Construção Civil, do IPT. Os resultados obtidos na fase laboratorial sinalizaram a viabilidade de obtenção de um aglomerante hidráulico, com características similares às do cimento Portland comum. "Isso apontou a viabilidade do projeto em escala industrial e motivou um pedido de patente, em processo junto ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual", conta.




A dissertação-livro



Critérios para o dimensionamento e escolha do sistema de fôrmas para edifícios habitacionais foi o tema escolhido pelo engenheiro e administrador Nilton Nazar, diretor da Hold Engenharia, consultoria em projetos, para desenvolver a sua dissertação do Mestrado do IPT. Por ser escassa a bibliografia no assunto, seu trabalho de conclusão interessou à Editora PINI, que o publicou na forma de livro sob o título "Fôrmas e escoramentos para edifícios".

A dissertação reúne estudos, análises e ensaios, que visam a caracterização, avaliação e desenvolvimento de produtos de madeira para a construção de edifícios. "A pesquisa repercutiu bem no mercado. Foi interessante transformá-la em um livro", declara Nazar.


Por Silvana Rosso
13o Prêmio Pini - 2007

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