Esse é o quarto artigo de uma série de textos dedicados à demonstração da importância das medidas ditas não estruturais no combate às enchentes urbanas: aquelas que, inteligentemente, atacam diretamente as causas das enchentes e não somente suas consequências.
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| Desnecessárias mutilações no terreno natural expõem os solos à erosão |
Com os três primeiros artigos tratamos dos bosques florestados, da serapilheira, das calçadas e valetas drenantes e dos reservatórios domésticos e empresariais de águas de chuva. Agora, trataremos do diabólico binômio erosão/assoreamento.
Mas antes vamos recuperar o que, no primeiro artigo, já foi esclarecido sobre as principais causas das enchentes urbanas, que hoje não há mais a menor dúvida sobre quais sejam: a impermeabilização generalizada da cidade, o excesso de canalização de cursos d''água e a redução da capacidade de vazão pelo volumoso assoreamento provocado pelos milhões de metros cúbicos de sedimentos que anualmente provêm dos intensos processos erosivos que ocorrem nas frentes periféricas de expansão urbana.
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| Terraplenagem também causa assoreamento |
Esse quadro determina o que se pode chamar de equação das enchentes urbanas: "volumes crescentemente maiores de água, em tempos sucessivamente menores, sendo escoados para drenagens naturais construídas progressivamente e incapazes de lhes dar vazão".
No que se refere ao assoreamento das drenagens, sejam as naturais, como rios e córregos, sejam as construídas, como galerias, valetas, bueiros, além de, pelos efeitos da impermeabilização, estarem recebendo um volume de águas que em muito supera sua original capacidade de vazão, têm essa capacidade ainda severamente comprometida pelo auto grau de assoreamento provocado pelo volumoso aporte de sedimentos, entulhos gerais e lixo urbano.
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| Incrível grau de assoreamento em um dos principais afluentes do Tietê e no próprio Tietê |
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É natural que, no crescimento das cidades, sejam primeiramente ocupadas as áreas de topografia mais suave, sendo com o tempo progressivamente ocupados os terrenos mais periféricos, de relevo mais acidentado e com solos normalmente mais vulneráveis à erosão. Opta-se, nessas novas condições topográficas, em todos os padrões sociais de empreendimentos, por produzir artificialmente, através de operações de terraplenagem pontuais ou generalizadas, áreas planas e suaves para assentar as novas edificações, o que implica em exposições cada vez maiores e mais prolongadas dos solos aos processos erosivos.
Para se ter uma ideia desse caos geotécnico, na Região Metropolitana de São Paulo a perda média de solos por erosão está estimada em algo próximo a 13,5 m³ por hectare/ano, do que decorre a produção anual por erosão de até 8.100.000 m³/ano de sedimentos e sua decorrente liberação para o assoreamento da rede de drenagem natural e construída. Especialmente as frações arenosas desse volume (3.250.000 m³) se depositam nos leitos de rios e córregos, e as frações silto-argilosas (4.850.000 m³) são levadas em suspensão e depositadas mais à frente ou em condições de águas paradas, como os piscinões e ruas e residências atingidas por enchentes.
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| Piscinão assoreado e típica margem de córrego em área urbana, com entulho e lixo em descartes irregulares |
O assoreamento chega a comprometer até 80% da capacidade de vazão das drenagens urbanas, constituindo-se hoje em uma das principais causas de nossas enchentes. Conquanto o lixo urbano represente sérios problemas para o bom escoamento das águas em alguns dispositivos de drenagem como bueiros, galerias e sistemas de bombeamento, o principal componente do assoreamento são os sedimentos originados de processos erosivos, representando mais de 90% do total assoreado.
A correção dessa deformação técnica passa por uma decisão radical de se voltar a categorizar a erosão como um mal de primeira categoria para a engenharia e para a sociedade. Um inimigo a ser batido. Em outras palavras, no âmbito dos procedimentos de qualidade impõe-se uma decisão de se adotar como referência o conceito de Erosão Zero.
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