Especialista afirma que isolamento acústico estipulado pela Norma de Desempenho é inviável
Para Davi Akkerman, requisitos para fachadas estão fora da realidade do mercado e deveriam ser revistos
Pâmela Reis
Para Davi Akkerman, requisitos de desempenho não devem ser atendidos nem nas obras de alto padrão
O engenheiro Davi Akkerman, sócio diretor da Harmonia Acústica, acredita que o mercado da construção não terá condições de atender aos requisitos de isolamento acústico de fachadas estipulados pela Norma de Desempenho (ABNT NRB 15.575). "Os valores são extremamente severos e dificilmente serão atendidos, mesmo no alto padrão", afirma. Akkerman se apresentou durante o seminário "Norma de Desempenho - O que muda a partir de maio?" promovido pelo Secovi-SP (Sindicato da Habitação) na última segunda-feira.
Na opinião do especialista e de diversos construtores, o isolamento acústico das fachadas é o ponto crítico da Norma e o cerne do problema está nos caixilhos e vidros. "Ensaiamos uma janela com dois vidros de 10 mm e tivemos isolamento de 25 dB [que é o mínimo exigido]", detalha Akkerman. "Mas geralmente a construção trabalha com vidros de 4 mm a 6 mm, no máximo".
Além disso, segundo o engenheiro, as janelas com dois panos de persiana e apenas um de vidro, largamente utilizadas, estão longe da conformidade, uma vez que o vidro é o principal elemento de vedação. Para ele, o primeiro passo é a adaptação da indústria, mas, ainda assim, os valores constantes na Norma devem ser revistos.
Outra exigência amplamente criticada pelos construtores é o isolamento acústico de ruídos de impacto entre lajes. Neste ponto, Akkerman não faz concessões: "Temos dados técnicos de que lajes com 10 cm a 12 cm de espessura atendem o requisito da Norma". Ele lembra, porém, que nem todas as lajes dessas espessuras serão adequadas, pois há outras variáveis que devem ser levadas em conta, como a dimensão do pano de laje.
Sobre o assunto, Luiz Henrique Ceotto, que coordenou o Grupo de Trabalho de Pisos Internos no CB-02 (Comitê Brasileiro da Construção Civil) e também compareceu ao evento, é categórico: "Para fazer a Norma, ensaiamos mais de 14 lajes diferentes. Tem muita gente falando que a laje de 10 cm não passa, mas onde está o ensaio?".
Davi Akkerman lembra, por fim, que o atendimento à NBR não blinda o apartamento contra ruídos e que é preciso levar em conta o bom senso no uso do imóvel. "Índice mínimo de desempenho não significa que o morador pode fazer uma festa e o vizinho não vai ouvir nada", pondera. "São índices mínimos, mas nos condomínios verticais tem que haver respeito entre vizinhos. O usuário tem que fazer a sua parte".
O evento No seminário promovido pelo Secovi-SP, seis palestrantes discorreram sobre a aplicação da Norma de Desempenho e esclareceram dúvidas dos participantes que lotavam o auditório. Os vídeos das palestras estão disponíveis no site da entidade, em www.secovi.com.br.
A ABNT NBR 15.575 - Edifícios habitacionais de até cinco pavimentos - Desempenho entra em vigor no próximo dia 12 de maio e será obrigatória para projetos protocolados nas prefeituras a partir de 12 de novembro deste ano. A normativa traça requisitos mínimos de desempenho para os sistemas da edificação, baseada nas necessidades dos usuários em relação à segurança, conforto, funcionalidade e durabilidade, entre outros tópicos.