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4/Novembro/2009

Para ampliar e modernizar estádios brasileiros, especialista espanhol em arenas esportivas defende uso de pré-moldados de concreto


Engenheiro Hugo Corres Peiretti esclareceu algumas das principais dúvidas dos construtores brasileiros sobre o sistema aplicado em instalações esportivas


Ana Paula Rocha

O engenheiro espanhol Hugo Corres Peiretti, fundador e presidente da FHECOR-Ingenieros Consultores, é especialista em pré-modados e foi o responsável pelo projeto e concepção estrutural desses sistema em alguns dos estádios de futebol da Espanha, como o Nuevo Valência. Corres esteve no Brasil a convite da ABCIC (Associação Brasileira de Construção Industrializada de Concreto) e ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) para uma série de palestras sobre o uso de pré-moldados com foco nas novas arenas brasileiras pra 2014.

Corres conversou com a reportagem da PINIweb e esclareceu algumas das principais dúvidas dos construtores brasileiros sobre esse sistema aplicado em instalações esportivas, como a questão da reverberação, dos efeitos dinâmicos da torcida, segurança estrutural, durabilidade, flexibilidade de layout, montagem e desmontagem de instalações esportivas em pré-moldados, viabilidade econômica etc. Confira a seguir a entrevista.

Divulgação
Os pré-moldados apresentam, em tese, um problema crítico de reverberação de esforços. O comportamento da torcida é aleatório e de grande impacto, pelo menos no Brasil. As estruturas pré-moldadas em estádios podem oferecer conforto dinâmico, sem que as pessoas sintam as oscilações?
Sim, claro. As estruturas são projetadas para não cair, não vibrar ou, pelo menos, vibrar pouco. Em pré-fabricados, é perfeitamente possível satisfazer essas condições de vibrações em estruturas bem projetadas. Normalmente, as vibrações não prejudicam os usuários.
 
O Brasil possui uma série de estádios, embora ultrapassados tecnologicamente. É possível usar os pré-moldados nas estruturas já existentes e modernizar esses estádios, ampliando sua capacidade?
A pré-fabricação é uma ferramenta que tem vantagens principalmente para ampliações de empreendimentos porque não te obriga a construir no local. O estádio Santiago Bernabéu, em Madri, por exemplo, originalmente foi construído da forma convencional, mas foi ampliado algumas vezes utilizando pré-fabricado. O sistema ofereceu vantagens quando se analisou a localização da arena, que era no centro da cidade, o fato de que continuaria a ser aberto ao público a cada dois sábados ou dois domingos, e, claro, a rapidez de construção, já que se gasta muito menos tempo quando as peças são construídas em fábrica e só são montando no local.
 
Em estádios pré-moldados, a estrutura de cobertura deve ser independente da estrutura do estádio?
A engenharia e a arquitetura é livre. Não há uma única solução para todos os problemas, aliás, se isso existisse, seria terrível. Há milhares de possibilidades. Acabamos de construir em Valência um estádio com elementos pré-fabricados, cuja cobertura, feita em estrutura metálica, envolvia toda a arena como se fosse uma casca.  Não houve nenhum problema em compatibilizar uma estrutura pré-moldada com uma cobertura metálica. O pré-moldado é uma possibilidade, não uma limitação. Mesmo em estádios que vão ser reformados.
 
Na África do Sul, muitos estádios não conseguirão manter-se depois de copa. Cogita-se desmontar alguns deles, inclusive. É possível pensar um estádio para que seja desmontado e suas peças aproveitadas depois em outras estruturas? Isso pode ser feito no Brasil?
A África do Sul é um país com problemas que não são comparáveis aos do Brasil. O Brasil tem uma tradição enorme com o futebol, enquanto, na África do Sul, a população gosta de futebol há pouco tempo. Mesmo assim, dá para projetar os estádios de futebol com outro tipo de utilização, como, por exemplo, o espaço exterior ao estádio, que tem um alto valor urbanístico para gerar edifícios que rentabilizam os centros comerciais e outros equipamentos. Na Espanha, existe uma praça nos arredores do estádio, que é utilizada ao ar livre no verão e coberta no inverno para que se possa fazer festivais de música e outros eventos. A desmontagem é uma possibilidade, mas acredito que aqui no Brasil, que tem uma cultura de futebol tão grande, ela não seja adotada. Já a utilização da estrutura para outras funções é uma possibilidade que deve ser investida.

No melhores estádios do mundo, a capacidade geralmente não ultrapassa os 60 mil lugares. Como projeto, este também é um número mais racional para um estádio em estrutura pré-moldada de concreto?
Não há limitação.
 
Historicamente, o Brasil possui uma engenharia muito competente em concreto moldado in loco, mas temos deficiências de planejamento. O planejamento será fundamental para que as obras da Copa sejam entregues dentro do cronograma. Como o senhor vê o planejamento de construções pré-moldadas para finalidades esportivas? O pré-moldado é, por excelência, o sistema construtivo das arenas e edificações esportivas, por causa da industrialização?
A Espanha também não é um modelo de planejamento. Um estádio nosso com 60 mil lugares foi construído com cerca de 60% da estrutura sendo pré-fabricada e a outra parte feita in loco. A obra demorou apenas um ano. Lógico tem que haver fábricas com capacidades de produção, mas eu sempre digo que a pré-fabricação é a construção do futuro porque realmente se mudam muitas coisas na região para o processo de pré-fabricação. Uma forma de industrializar é pré-fabricar, porque aí se controla melhor a qualidade, se produz melhor os materiais e uma série de fatores mudam. Não estou dizendo que a construção convencional é ruim. Mas a pré-fabricada é um processo que é mais bem controlado e consequentemente que permite uma qualidade melhor da obra. Mas, vale lembrar, que o pré-fabricado em si já tem uma logística totalmente diferente da construção convencional. Se me perguntam se em um país que não tem ainda a pré-fabricação em grande escala poderá fazê-la em um evento específico como a Copa, eu respondo que sim, o pré-fabricado não se planeja apenas para estádios e se sim para pré-fabricar distintos tipos de estruturas. Logicamente que eu não conheço a organização interna da pré-fabricação brasileira, mas suponho que disponham dos meios para viabilizarem-no. Para pré-fabricar, você tem que ter fornecedores, equipamentos específicos como gruas, caminhões, peças do tamanho necessário, tem outra logística, mas não tem nenhum problema para adotar o sistemas. A pré-fabricação é uma possibilidade, não uma limitação.
 

Os estádios sofrem um uso bastante agressivo, seja pelo comportamento da torcida ou pela exposição ao tempo e as intempéries. Que cuidados é preciso ter com a durabilidade das construções esportivas com pré-moldados?
A durabilidade depende da qualidade de construção, exatidão da obra, dos materiais utilizados. No caso das estruturas pré-fabricadas, os elementos de ligação das peças pré-fabricadas são o diferencial, que tem que ser planejados inteligentemente. Os outros cuidados que tem que ter com as estruturas pré-moldadas são os mesmos de qualquer estrutura convencional. Tudo requer manutenção. Estar bem concebido não significa que não vai precisar de manutenção.

Em sua opinião, qual é o maior desafio que os projetistas brasileiros vão encarar para projetar os estádios da Copa do Mundo de 2014? 
O desafio para qualquer projetista é encontrar a melhor solução para o problema. Para mim, a melhor solução é o equilíbrio. Não há uma solução que resolva todos os problemas. É preciso achar a combinação perfeita que leve em consideração aspectos como a durabilidade, o tempo de construção, a funcionalidade, a segurança, entre outros. Como disse, seja para a construção ou para a ampliação de um estádio é preciso estudar cada situação de uma forma diferente até achar a solução adequada. Para mim, a melhor possibilidade é combinar vários sistemas.


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