A informação de que as fábricas brasileiras de cimento estavam próximas de sua capacidade máxima ganhou nova dimensão. Com uma produção de 4,5 milhões de toneladas e um déficit estimado de 200 mil toneladas mensais, as discussões sobre abastecimento e soluções de curto prazo começaram a circular entre entidades da construção civil. Uma das mais polêmicas foi divulgada pelo jornal Gazeta Mercantil no dia 2 de outubro - a Votorantim Cimentos pretende importar 100 mil toneladas mensais da China.
A cimenteira já decidiu realizar compras internacionais até que os investimentos de R$ 3,2 bilhões, injetados até 2011, resultem efetivamente na ampliação em 60% da produção e do fornecimento do cimento. A importação elevará o valor final do produto, mas a empresa informou que absorverá os custos.
O SindusCon-SP (Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Estado de São Paulo) já havia feito a sugestão para que diversos órgãos da construção intermediassem a questão da importação junto às indústrias. "O SindusCon-SP está muito preocupado com o abastecimento e estamos mostrando as medidas que as empresas estão tomando. Uma das possibilidades é a importação", afirma o secretário executivo da SNIC (Sindicato Nacional da Indústria do Cimento), José Otávio Carvalho. O secretário revela que a Votorantim foi a primeira que fechou uma equação com essa solução e que outras empresas também estudam essa possibilidade.
As indústrias do setor possuem planos de expansão e execução que demandam tempo. Entretanto, o consumo de concreto exige medidas a curto prazo. Assim, os fabricantes começaram a reativar os fornos paralisados pela baixa demanda do setor nos últimos anos, reativar fábricas inteiras e até mesmo redirecionar a produção para o mercado interno. É caso da unidade de Laranjeiras (Sergipe) da Votorantim, que exportava anualmente 1 milhão de toneladas de cimento. De acordo com o Snic, as exportações brasileiras de cimentos já caíram 50,9% neste ano e somaram 44 milhões de toneladas até agosto. "Há fabricantes que estão priorizando o volume e diminuindo a fabricação cimentos especiais, já que estes reduzem a produção quantitativamente", complementa Carvalho.
Para o representante da Snic, a importação é uma das medidas possíveis e é uma ação emergencial. A razão está no fato da operação ser onerosa e complexa. Para ter uma idéia, a tonelada do cimento produzido em Sergipe sai da fábrica a US$ 60 e chega ao exterior a US$ 110. "O mercado internacional não possui muita oferta de cimento e o preço do produto no Brasil é muito baixo perante outros países", alerta Carvalho.
Os portos brasileiros também são empecilhos para a importação do cimento. Por exemplo, na região sudeste, não há um atracadouro preparado para receber produtos com especificações necessárias para preservar a qualidade do cimento. Há também o fato do produto ser perecível.
A Snic analisa que o problema do abastecimento se agravou com o aquecimento do mercado aquém do esperado e também com o histórico aumento do consumo entre agosto até o início das chuvas. "É um momento difícil, mas as indústrias querem amenizar os impactos na sociedade brasileira", finaliza Carvalho.